quarta-feira, fevereiro 04, 2026

Bolha

Será certamente motivo de estudo para a ciência política durante muitos anos o estranho fenómeno que assolou o centro e a direita portuguesas perante umas eleições presidenciais fáceis de ganhar e que conseguiram perder.
Olhemos o cenário.
No Parlamento existe uma imensa maioria (embora com dificuldade em juntar votos em diversas matérias) do centro e da direita com cerca de 70% dos deputados eleitos com a AD a ter 88, o Chega 60 e a Iniciativa Liberal 9.
A ela se opõe a mais pequena esquerda de que há memória com o PS reduzido a 58 deputados, o Livre a 6, a CDU 3, e BE e PAN com um cada.
Bastaria um candidato forte e agregador da área do centro e direita para vencer à primeira volta.
E eles existiam.
Pedro Passos Coelho que faria facilmente o pleno de todo o centro e direita porque com ele a concorrer acredito que nem André Ventura nem Cotrim de Figueiredo teriam concorrido, Pedro Santana Lopes cuja candidatura não sendo tão abrangente como a de Passos ainda assim uniria a sua área política sem concorrentes de peso e José Manuel Durão Barroso que com maior dificuldade conseguiria ainda assim ser abrangente e vencer a eleição.
Três ex primeiros ministros, um deles ex presidente da comissão europeia com tudo que isso implica de vantajoso para Portugal  em termos de relações internacionais, mas nenhum foi candidato à eleição.
Por razões pessoais, por razões politicas, por razões partidárias , isso agora pouco importa a não ser aos estudantes de ciência política porque a verdade é que não foram candidatos.
E com isso o centro e direita perderam as eleições.
Porque ao invés de constituirem um bloco unido e forte que elegesse facilmente o seu candidato dispersaram-se por várias candidaturas das quais apenas uma, aquela que dificilmente terá possibilidades de vencer a eleição, conseguiu passar à segunda volta.
E isto perante as irrelevantes candidaturas de PCP, BE e Livre, que apenas foram a votos para terem tempo de antena para atacarem o governo,  um candidato do PS que não entusiamava ninguém nem apoios significativos tinha dentro do partido até se perceber que podia ser vencedor e um candidato independente que se apresentou a votos com o pressuposto errado de que o bom trabalho na questão das vacinas se traduziria automaticamente em votos.
O que explicará semelhante erro do centro e da direita?
Francamente não sei porque não conheço o pensamento dos decisores.
Mas sei, de há muito, que há em Lisboa uma bolha política com uma tremenda dificuldade em conhecer e perceber o país real e que confrontada com ele tem muitas vezes surpresas desagradáveis.
Essa bolha, dentro da qual vivem políticos, comentadores, analistas, jornalistas e figuras vips do passado dos partidos, constroem cenários em volta da sua forma de pensar e depois admiram-se do comum dos cidadãos não pensarem como eles.
Basta ver a dificuldade que ainda hoje tem para compreenderem o Chega para perceber isso.
E então talvez esteja nos residentes de centro direita na bolha a explicação para este insucesso.
Porque não perceberam (se calhar alguns não quiseram perceber...) que havia no seu espaço natural candidatos claramente ganhadores mas era preciso criar as condições para eles avançarem por mais que isso desagradasse a pré candidaturas há muito no terreno. E não o fizeram.
Porque não perceberam ( se calhar alguns não quiseram perceber...) que a candidatura de Luís Marques Mendes nem sequer fazia o pleno da AD quanto mais agregar os votos de todo o centro e de toda a direita e que era em si mesma um convite ao aparecimento de mais candidaturas naquela área política.
Porque quando se percebeu que a candidatura estava em perda absoluta, conforme todas as sondagens o indicavam, não tiveram o bom senso de pressionarem á desistência de Marques Mendes a favor de Cotrim de Figueiredo para permitir que a segunda volta fosse uma disputa equilibrada entre ele e Seguro e não uma consagração do candidato de esquerda.
E cabe aqui recordar que em termos de desistência a favor do seu candidato mais bem colocado a esquerda já foi várias vezes bem mais esclarecida.
Porque mesmo depois de tanto erro muitos deles  ainda conseguem cometer mais um indo como bons anjinhos que são (nem todos, nem todos...) na procissão atrás de António José Seguro sem sequer perceberem o "aviso" que o líder do seu partido (no caso o PSD) fez quanto ao erro que isso constitui porque uma vitória dilatada do socialista é evidentemente um factor de ameaça para o governo e a base sólida para a recuperação política de um PS que até esta eleição estava nas ruas da amargura.
Enfim nada há a fazer.
Os dados estão lançados e os portugueses decidirão mas por mim não tenho qualquer dúvida que a bolha política lisboeta prestou mais um mau serviço a Portugal.
Depois Falamos

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