Ainda a propósito do regresso de Pedro Santana Lopes ao PSD, e das reações que suscitou, achei particularmente engraçado um comentário que li, penso que no "Observador", de uma senhora cujo nome não fixei (nem interessa para o caso) mas que se dizendo militante do PSD discordava do regresso de PSL e criticava Luis Montenegro e Hugo Soares por terem promovido a sua refiliação, com o argumento de que PSL era uma dos responsáveis por o "nosso (dela) Luis Marques Mendes ter perdido as presidenciais".
Até onde pode chegar o exagero, o delírio e a falta de noção.
Porque mesmo admitindo que PSL não tenha votado em Marques Mendes, não sei obviamente em quem votou, seriam precisos mais 690.000 "Santanas Lopes" a votarem em Mendes para este ao menos conseguir ir à segunda volta.
E por isso quando se profere um disparate desses apenas se pode esperar a piedade a que todos tem direito.
Mas deixando de lado os exageros e indo aos factos políticos será que PSL tinha alguma obrigação de votar em Marques Mendes?
Triplamente não.
Não porque as candidaduras presidenciais são individuais e não partidárias pelo que não vinculam os militantes de um partido democrático ao voto em qualquer candidato mesmo que apoiado pelo partido.
Não porque mesmo que fossem partidárias e o voto vinculativo nessa altura PSL ainda não tinha regressado ao PSD.
Não porque PSL tinha várias e importantes razões para não o fazer.
Não vale a pena puxar o "filme" muito atrás, até aos anos 80/90, mas basta recordar dois momentos .
Em 2005 quando o PSD perdeu as eleições para o PS de José Sócrates e Marques Mendes nessa mesma noite exigiu a demissão do líder do partido, que era PSL, e a realização de um congresso electivo sem sequer uma palavra de solidariedade para quem tinha perdido.
Do mesmo líder que o tinha colocado como cabeça de lista em Aveiro.
E depois o veto. O vergonhoso veto.
Alguns já não se lembrarão, outros não lhes interessa lembrar e outros ainda lembram-se mas fazem de conta que não, mas em 1997 PSL tinha ganho pela primeira vez a câmara da Figueira da Foz para o PSD e antevia-se que em 2001 a sua reeleição seria um passeio face ao sucesso do seu mandato.
Por seu turno em Lisboa o PSD nunca tinha ganho a câmara, participara na governação da mesma em coligação com o CDS sendo presidente Kruz Abecassis desse partido, e desde 1989 que o PS com Jorge Sampaio e depois João Soares liderava o munícipio face às derrotas de Marcelo Rebelo de Sousa, Macário Correia e Ferreira do Amaral.
E foi nesse cenário que Durão Barroso convidou PSL a trocar o passeio da Figueira por uma árdua batalha em Lisboa face ao presidente recandidato, João Soares, que liderava uma geringonça desses tempos, ao então líder do CDS Paulo Portas ("Eu Fico") que concorria sozinho e à candidatura do BE liderada por Luis Fazenda, entre outros.
E a verdade é que PSL venceu.
E a sua vitória, retirando Lisboa ao PS após doze anos, foi decisiva para a demissão de Guterres e a realização de eleições antecipadas que viriam a dar a vitória ao PSD.
Depois já se sabe que em 2004 Durão Barroso foi para Bruxelas, PSL sucedeu-lhe como líder do PSD e primeiro ministro, e um dia sem razão plausível Jorge Sampaio dissolveu o parlamento e nas eleições subsequentes o PS venceu com maioria absoluta e com o "lindo" resultado que se conhece da governação de José Sócrates.
Nesse contexto PSL voltoua à câmara de Lisboa para cumprir o mandato e naturalmente apresentar a recandidatura mas foi impedido disso por Luis Marques Mendes que vencendo meses antes o congresso de Pombal, por curta margem sobre Luís Filipe Menezes, era líder do PSD!
Politicamente quase tão mau como o veto, e pessoalmente bem pior, foi o "meter" PSL num saco onde estavam Isaltino Morais e Valentim Loureiro também vetados, mas por razões judiciais, sendo certo que PSL não tinha qualquer problema desse âmbito.
Ou seja Marques Mendes vetou um ex presidente do PSD, um ex primeiro ministro, um presidente de câmara em funções, de uma câmara que se ganhara muito em função de ser ele o candidato, de ser recandidato à câmara a que presidia.
Foi, no mínimo, insólito.
Num aparte sabe-se o que aconteceu a seguir.
Carmona Rodrigues venceu a eleição mas menos de dois anos depois Marques Mendes obrigou-o a demitir-se por causa do "caso Bragaparques" ( em que os tribunais o absolveram das acusações) e literalmente deu a câmara ao PS e a António Costa que iniciou aí a sua ascenção até ao governo e uma vez mais com o "lindo" resultado que se conhece.
Em suma , e concluindo que o texto já vai longo, não sei em quem votou PSL nas últimas presidenciais mas a fazer fé no que disse neste congresso não terá sido em António José Seguro nem em André Ventura.
Mas se não votou na primeira volta em Marques Mendes, e só nessa o podia ter feito, há que dizer que se compreende perfeitamente depois de tudo aquilo que atrás ficou exposto.
Porque razão havia de ser solidário com quem em 2005 foi o primeiro a puxar-lhe o tapete?
Porque razão havia de confiar o seu voto a quem não confiou nele?
Porque razão havia de ajudar a eleger para PR quem o impediu de ser candidato a uma câmara que ele próprio tinha ganho na eleição anterior?
A senhora que comentou no "Observador" , e se calhar outras senhoras e outros senhores que pensam igual, que tenha paciência mas há exageros que o ridículo mata sem piedade.
As coisas são o que são.
Depois Falamos.