
"No meu tempo é que era.." ou "no meu tempo não era assim..." são frases que se ouvem com alguma frequência na política, no desporto, no associativismo, no jornalismo e em tantas outras áreas da sociedade em que todos vivemos.
São frases perfeitamente inúteis, que em nada valorizam o passado mas apenas traduzem a incapacidade dos seus utilizadores em aceitarem a evolução dos tempos e as mudanças que eles inevitavelmente trazem às pessoas e organizações e por isso querem fazer passar a ideia de que dantes era tudo muito melhor.
Não era.
E tentar depreciar o presente por comparação com o passado que tentam "vender" como glorioso apenas aumenta a ruptura com a actualidade e a dificuldade de a aceitarem como ela é e agirem em conformidade.
E deixo aqui uma pequena história pessoal a ilustrar o que digo mas com um exemplo positivo porque de negativos, nesta e noutras matérias, já está o mundo cheio.
Tive um grande amigo de que já aqui falei, infelizmente falecido fará em Setembro seis anos, que durante mais de trinta anos foi responsável pela sede do PSD de Guimarães onde estava normalmente cinco noites por semana, quarenta e oito semanas por ano (em Agosto estava fechada excepto em ano de autárquicas) desde 1975 até á sua reforma.
Nesses tempos remotos Guimarães tinha setenta e três freguesias ( agora tem sessenta e nove) e a preparação de um processo autárquico ( até a convocação de um simples plenário era complexa) levava muitos meses de trabalho porque não havia internet, redes sociais, telemóveis, computadores, impressoras, fotocopiadoras e portanto tinha de ser tudo por telefone, por carta, usando máquinas de escrever e uma arcaica máquina de stencil que era uma antepassada das fotocopiadoras.
E esse meu amigo, chamado Francisco Martinho, coordenava todo esse tremendo trabalho com a ajuda de alguns voluntários que durante meses, muitos meses, trabalhavam para que o processo de candidatura pudesse ir para tribunal a tempo e horas.
Ninguém hoje, excepto as pessoas desse tempo que participaram em processos autárquicos, imaginam o trabalho que aquilo dava.
Mas também as relações de amizade, de companheirismo, de solidariedade que se estabeleciam.
Com o passar dos anos apareceram novas tecnologias que simplificaram muito os processos mas o meu amigo, excepto o telemóvel, nunca se adaptou a elas e nunca usou um computador ou uma impressora, nem nunca acedeu à net.
Um dia reformou-se do seu cargo de chefe de secretaria de uma IPSS de Guimarães e também deixou o seu part time no PSD embora continuasse a frequentar a sede e a ajudar com a sua experiência e o seu sábio conselho os seus sucessores.
E dizia-me muitas vezes qualquer coisa como isto: "Estas modernices simplificam muito o trabalho que é agora muito mais fácil que no meu tempo mas eu é que não me consigo adaptar a elas".
Uma posição tão séria quanto exemplar.
Reconhecendo as vantagens do progresso, percebendo que os tempos são outros, mas admitindo que não se conseguia adaptar às novas tecnologias e aos novos procedimentos ao invés de para justificar essa incapacidade se agarrar ao estafado e inútil " no meu tempo é que era..." ou "no meu tempo não era assim..." que mais não é do que uma recusa de nalguns casos se admitir que o tempo passou e não volta para trás.
Enfim divagações, e o recordar de velhas histórias e de um grande amigo, ao sabor de frases que se vão ouvindo.
Depois Falamos.
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