sábado, agosto 22, 2026

Clubismo

Hoje, fruto de uma conversa,  recordei-me de Nicolau Casaus e do estádio de Sarriá.
Ambos já desaparecidos mas que no seu tempo desempenharam um papel significativo na História do futebol espanhol em geral e catalão em particular.
Nicolau Casaus foi um dirigente histórico do Barcelona, seu vice presidente durante mais de vinte anos e um feroz defensor da identificação entre Barcelona e a Catalunha.
Com a curiosidade de em 1978 ter perdido as eleições para a presidência do clube face a outro histórico do Barça - José Luis Nunez- que de imediato o convidou para a vice presidência reconhecendo a sua importância no clube e o prestigio de que gozava juntos dos adeptos.
E nesse mais de vinte anos foi o responsável pela acção social e pelas delegações do clube em toda a Espanha, as famosas "peñas", que percorreu incansavelmente levando a todas elas a sua forte convicção barcelonista assumindo-se como um embaixador do clube da Catalunha.
No futebol pouco interveio a não ser por ter sido o principal responsável pela contratação de Maradona pelo Barcelona, em 1982 ,com o astro argentino que viveu em casa de Casaus algum tempo a considera-lo para sempre como um pai desportivo.
O já demolido estádío de Sarriá, na avenida com o mesmo nome, foi durante muitos anos a casa do Espanhol de Barcelona até o clube o ter vendido em 1997 (os terrenos no centro da cidade valiam uma fortuna e o clube estava com graves problemas financeiros) e se ter mudado para o seu actual estádio nos arredores de Barcelona em 2009 passando os doze anos de intervalo a utilizar o Estádio Olímpico.
Foi o estádio onde, por exemplo, se disputou o inesquecível encontro entre Brasil e Itália no Mundial de 1982 onde a fabulosa equipa brasileira foi derrotada pelo pragmatismo italiano e muito em especial por um tal Paolo Rossi.
Dito isto é sabido que entre Barcelona e Espanhol existe uma imensa rivalidade porque para além de serem clubes da mesma cidade representam também visões politicas muito diversas com os "culés" a assumirem-se como bandeira da Catalunha enquanto os "periquitos" são arautos de uma Espanha unida.
E se rivalidades desportivas , ainda por cima entre clubes da mesma cidade, já são particularmente escaldantes quando se lhes somam as divergências políticas nem é bom imaginar.
E como aparece Nicolau Casaus misturado com Sarriá?
Um dia, no início dos anos 90, o Barcelona deslocava-se a Sarriá numa das primeiras jornadas de "La Liga" e o jornal desportivo catalão "Sport", que está para o Barcelona como "A Bola" para o Benfica ou "O Jogo" para o Porto, no âmbito de uma entrevista a Nicolau Casaus questionou-o se no domingo seguinte iria a Sárria para ver o tal jogo.
Ao que na altura o já idoso (devia andar pelos oitenta e tal anos) vice presidente do Barça respondeu secamente segundo descrição do jornalista:
"Um Barcelonista não vai a Sárria! 
Mostrando que a rivalidade com o vizinho era tão intensa e de tanta amplitude que ia ao ponto de se recusar a entrar no seu estádio em nome de um clubismo sem limites.
Outros tempos?
Provavelmente...
Depois Falamos.

Nota: Uma frase famosa de Nicolau Casaus era " Não gosto de futebol, gosto do Barcelona". Curiosamente este barcelonista convicto nasceu na Argentina, em 1913, e foi viver para Barcelona com os pais em 1918. Participou na guerra civil ao lado dos republicanos e foi condenado á morte pelos franquistas mas conseguiu escapar. Muito antes de Maradona e Messi foi um argentino muito querido pelos adeptos do Barcelona.

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