quinta-feira, junho 27, 2019

A Ilusão Félix

O meu artigo desta semana no zerozero.

Como ponto prévio, muito por causa daqueles que veem teorias da conspiração em todo o lado e fazem da mania da perseguição o seu argumento primeiro,  devo dizer que considero João Félix um bom jogador que pode aspirar a ser um grande jogador se continuar a evoluir da forma como o tem feito até aqui.
Dito isto importa referir que após meia época de sucesso, num campeonato em que há goleadas de 10-0 e jogando num clube em que tudo é menos difícil do que noutros do mesmo patamar (porque daí para baixo estamos conversados...), é um brutal exagero o endeusamento que se está a fazer em volta de um jovem jogador que o que mais precisa nesta fase da sua carreira é tranquilidade para se concentrar na sua profissão.
Não me vou referir sequer aos valores da sua propalada, mas ainda  não confirmada, transferência para um clube espanhol porque de há muito que deixei de acreditar na chuva de milhões que anda em volta do futebol, e de alguns dos seus clubes e jogadores, porque essas verbas envolvem sempre aspectos muito mal explicados e dos quais nunca se consegue apurar a verdadeira realidade dos factos.
Direi apenas que o o jovem João Félix, um talento natural que ainda precisa de evoluir muito para chegar ao patamar dos grandes jogadores europeus, pago por metade dessa verba de cento e vinte milhões já era muito bem pago e ainda assim esse pagamento significaria um sinal de visível optimismo por parte do comprador.
Ponto!
Mas refiro-me, mais do que às verbas do negócio, ao carnaval mediático montado em torno do jogador pelos jornais desportivos de Lisboa e por um diário que faz do sensacionalismo profissão com sucessivas primeiras páginas com o jogador e dando livre curso a uma imaginação “jornalística” que parece sem limites.
Até o preço que pagou num almoço para que convidou alguns amigos foi notícia de primeira página imagine-se.
Já para nem falar daquele pitoresco e despropositado episódio de ser nomeado “embaixador” da terra onde nasceu com direito a recepção na câmara municipal e tudo como se tivesse algum feito relevante no seu ainda curtíssimo currículo.
A História do nosso futebol, e destes orgãos de comunicação social já agora, está cheia de exageros deste género em volta de jogadores que por demonstrarem algum talento e alguma capacidade nos seus primeiros passos na primeira equipa de dois ou três clubes se tornam desde logo nos novos “Eusébios” ou novos “Figos” ou “Futres” ou coisa do género porque se mistura uma ânsia em torno do sensacionalismo que vende com paixões clubistícas que muito não conseguem deixar à porta das redacções.
Quem não se lembra de Dani? Ou de Freire? Ou de Hugo Leal?Ou de Cavungi?
Para citar apenas alguns dos muitos a que foram vaticinados futuros extraordinários mas que nunca passaram de carreiras medianas ou nem sequer isso.
E se alguns dos leitores, até por questões de idade, não recordam os nomes citados darei um exemplo muito mais recente e que todos terão facilidade em recordar.
 Renato Sanches.
Como Félix fez meia época de sucesso no mesmo clube, foi chamado à selecção (aí com excelente prestação no Euro 2016) e protagonizou uma grande  , mas prematura, transferência para o Bayern de Munique.
Resultado?
Passou os três últimos anos a marcar passo, dividido entre um empréstimo mal sucedido ao Swansea e longas permanências no banco do clube alemão, e está agora ansioso por sair da Alemanha e reatar a sua carreira consciente de que ela já podia estar noutro patamar se as opções tivessem sido mais sensatas e o endeusamento menor.
Receio que João Félix vá pelo mesmo caminho, com esta possível saída para um clube e um campeonato onde as exigências e a competitividade são brutalmente maiores que no “bem bom” da Liga portuguesa, repetindo assim o que foi no seu tempo a triste experiência de João Vieira Pinto no mesmíssimo Atlético de Madrid.
Esperemos que não.
E que Félix consiga ser o grande jogador, que em potência já é e de que o futebol nacional tanto necessita agora que na ainda algo distante  linha do horizonte já se vê ao longe o fim da carreira de Ronaldo, mas que o consiga ser no seu tempo sem precipitações e “folclores” como os que se tem visto na comunicação social e não só.
Acredito que o conseguirá.
Pelo seu valor e apesar destes profissionais da bajulação que apenas o prejudicam.

terça-feira, junho 25, 2019

Pedroto & Sá

Parece o nome de uma sociedade comercial mas não é.
Embora associe, de certa forma, dois treinadores que fizeram uma obra relevantissíma ao serviço do Vitória ,em modalidades diferentes (futebol e basquetebol), contribuindo significativamente para as ambições de crescimento que nunca podem abandonar o clube.
Escrevi recentemente no Facebook um texto em que referia que José Maria Pedroto e Fernando Sá foram os dois treinadores mais importantes dos últimos cinquenta anos do Vitória mas não o fundamentei , por não se o espaço adequado para o efeito,o que levou a que algumas pessoas não compreendessem a razão de ser da afirmação.
Explico agora e aceitando que as gerações mais novas nem tenham a percepção da importância de Pedroto para o crescimento do clube dado ter passado por Guimarães há quase quarenta anos.
Quando em 1981 chegou ao Vitória, por força de uma enorme crise no FCP, isso equivaleu ao contratar nos tempos de hoje um treinador como José Mourinho tal a relevância que Pedroto tinha no futebol nacional e a diferença qualitativa em relação aos restantes.
Esteve duas épocas em Guimarães, muito pouco tempo para o que o Vitória precisava, mas teve ainda assim o espaço temporal para inculcar no clube uma ambição de crescimento que até então não existia e que teve como reflexo maior as primeiras obras de modernização do estádio, as ideias para um complexo desportivo e um respeito pelo clube que passou a jogar de igual para igual em todos os estádios deste país.
Respeito esse que era potenciado pela figura do treinador que ocupava o banco vitoriano.
Quando ao fim de dois anos saiu deixou a garantia de que no Vitória as coisas nunca mais seriam como dantes.
E não foram.
Pelo menos para os adeptos.
Fernando Sá chegou a Guimarães há 13 anos trazendo com ele uma modalidade que não existia no clube e não tinha grande tradição no concelho nem na própria região minhota.
Nesse espaço de tempo venceu duas taças de Portugal, foi duas vezes vice campeão nacional, venceu uma taça "António Pratas" e uma Proliga entre outros feitos de menor relevância catapultando o Vitória para o primeiro plano do basquetebol nacional e criando nos adeptos (infelizmente em menor número do que seria desejável) uma apetência pela modalidade e o saudável hábito de apoiarem a equipa especialmente em jogos decisivos.
E por isso digo que José Maria Pedroto e Fernando Sá foram os dois mais importantes treinadores do Vitória nos últimos 50 anos.
Um criou no clube a ambição de ombrear com os maiores.
O outro provou que isso era possível. 
E ambos o fizeram em cenários competitivos, financeiros, arbitrais ,disciplinares e comunicacionais que em nada lhes eram favoráveis.
Mas conseguiram!
Depois Falamos

terça-feira, junho 18, 2019

Demais...

O meu artigo desta semana no jornal digital Duas Caras.

Se há áreas que nasceram bem distintas mas tem vindo a convergir aceleradamente, quando não a misturar-se de forma obscena, elas são a política e o desporto ao ponto de muitas vezes não sabermos onde começa uma e acaba a outra.
Com a política a perseguir a popularidade que o desporto e as suas grandes figuras lhe podem trazer e com o desporto a ver, muitas vezes mas nem sempre, na política o recurso onde pode ir buscar os recursos que lhe faltam.
Entenda-se o dinheiro.
Não é questão nova bem entendido.
Porque tendo nascido separadas e bem separadas  a aproximação entre ambas as áreas começou a tornar-se visível nos anos trinta do século passado com um enfoque muito especial nos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936, instrumentalizados até à medula pelo regime nazi de Adolf Hitler para tentar provar a supremacia da raça ariana sobre todas as outras demonstrando assim a supremacia do povo alemão.
Sabemos que não foi bem assim, que os seus intuitos ficaram bem longe de serem alcançados muito por força de um certo Jesse Owens, mas foi a primeira tentativa visível de misturar a política com o desporto.
E como as ditaduras podem divergir na ideologia mas convergem muitas vezes nos métodos, propósito e objetivo, todos conhecemos o que foram as décadas seguintes com a URSS e os então países satélites do lado de lá da “coritna de ferro” a usarem o desporto como arma de propaganda ideológica e a tentarem traduzir vitórias olímpicas e em campeonatos europeus e mundiais (em todas as modalidades sem excepção) como o resultado dos benefícios trazidos pelo socialismo à prática desportiva.
Sabe-se hoje, como aliás já se desconfiava na altura, que essa relativa supremacia dos atletas de Leste em JO e outras provas assentava , em muitos casos, em duas enormes mentiras que o tempo se encarregou de desmascarar:
No falso amadorismo e no uso de doping.
Com o doping a potenciar as capacidades desportivas dos atletas, ou seja fazendo batota e adulterando a verdade desportiva das competições, e o mito do amadorismo a querer fazer crer que mesmo sendo amadores os atletas “socialistas” eram melhores que os profissionais dos países capitalistas.
Como todas as ditaduras, sejam de esquerda sejam de direita, assentam em mentiras eram, afinal, apenas mais duas que a URSS e os países satélites usaram descaradamente até ao dia em 1989 em que todas as suas mentiras caíram por terra.
Em democracia, sejamos claros, também não há inocentes na matéria e por isso não admira que de governos a autarquias, passando por chefes de Estado, todos gostem de capitalizar os triunfos desportivos de selecções , clubes e atletas procurando fazer reverter a favor dos agentes políticos o capital de simpatia, entusiasmo e paixão que as vitórias desportivas sempre geram nas populações.
Não é um fenómeno exclusivamente português, embora por cá os exageros sejam levados até ao ridículo puro e simples, porque todos constatamos que noutros países os sucessos desportivos também são aproveitados pelos governantes para a “selfiezinha” com os vencedores do momento.
Mas Portugal é Portugal.
E já nem falando do caso daquele ex primeiro ministro que em campanha eleitoral pagou (pagamos queria eu dizer...) bem pago um mediático pequeno almoço com um futebolista então no galarim, o que constituiu um dos tais exageros levados ao ridículo, podemos de norte a sul constatar que se multiplicam os actos de veneração do poder político ao fenómeno desportivo.
É no futebol, é no basquetebol, no hóquei em patins, no voleibol, no ténis, no atletismo, na canoagem, no polo aquático e sei lá em quantas mais modalidades que o sucesso desportivo,às vezes mínimo, dá logo direito a recepção com pompa e circunstância na Câmara Municipal mais à mão.
Ainda recentemente tivemos o caso, que considero insólito, da selecção nacional de futebol mal venceu a Liga das Nações ir a correr para a Câmara Municipal do Porto como se esse fosse um ritual indispensável à conquista do troféu.
Como já tivemos, em Guimarães, o facto deplorável de um troféu de campeão nacional de juvenis (em futebol) conquistado pelo Vitória  ser entregue no salão nobre da Câmara e não no estádio D.Afonso Henriques perante os adeptos vitorianos como seria adequado.
E estes são apenas dois exemplos das centenas que seriam possíveis dar.
Há política a mais no desporto.
E há um aproveitamento cada vez mais excessivo dos triunfos desportivos para promover os agentes políticos que em muitos casos festejam triunfos de clubes que nem são os deles e de modalidades a que jamais assistiram a uma competição.
Quando, ao invés, nunca vi (e aí bem) um dirigente político ir festejar um triunfo eleitoral para um estádio ou um pavilhão desportivo!
É preciso bom senso.
Especialmente dos dirigentes dos clubes e federações no permitirem os aproveitamentos políticos dos triunfos desportivos.
É evidente que política e desporto, por muitas razões, não podem nem devem ser compartimentos estanques da vida em sociedade.
Mas como está...é demais!

sábado, junho 15, 2019

Ecletismo

Sou, desde sempre, um defensor do Vitória como um clube eclético que não se resuma apenas ao futebol mas que possua outras modalidades que lhe permitam uma presença competitiva em várias modalidades e, simultaneamente, sejam um espaço de prática desportiva para os jovens vimaranenses e não só.
Por isso sempre defendi que para lá do futebol o clube deva ter mais duas ou três modalidades de equipa em que dispute para ganhar as competições nos diversos escalões a par de outras individuais e colectivas em que nuns casos dispute títulos e noutros a vertente da prática desportiva seja a dominante.
Por isso os anos áureos do voleibol,masculino e feminino, trouxeram grandes alegrias aos vitorianos consubstanciadas em títulos e taças e mostraram que o clube pode ser competitivo ao mais alto nível nacional se as coisas forem bem feitas.
O que posteriormente o basquetebol confirmou exuberantemente com a conquista de duas taças de Portugal e dois vice campeonatos deixando a clara sensação de que podia ter ido ainda mais longe se tivesse tido o apoio que merecia.
Sendo certo que outras modalidades, como as de combate, tem dado ao clube títulos nacionais ,europeus e mundiais a que se calhar não tem sido dada a atenção que bem mereciam.
Escrevo isto hoje, sábado 15 de Junho, quando o Vitória está a poucas horas de poder sagrar-se campeão nacional de pólo aquático se vencer, em casa, o terceiro e último jogo da final depois de um triunfo no primeiro jogo e uma derrota nos penáltis na segunda partida.
Acredito que seremos campeões e que o pólo aquático, depois do voleibol, será a segunda modalidade de equipa a dar um titulo nacional absoluto ao Vitória.
E é importante dizer hoje, e antes de se saber qual o resultado, que a vertente eclética é uma componente importantíssima do ADN Vitória e faz parte de uma imagem de marca do clube que nunca poderá ser esquecida.
Num tempo em que o clube se vê imprevistamente mergulhado em eleições, e em que se ouve falar de nomes tantos e de ideias nenhumas (para já pelo menos), é importante que cada candidato defina o que tenciona fazer em termos de modalidades para se perceber até que ponto cada um deles está identificado com o que é o Vitória.
E esta não será, pelo menos para mim, uma questão menor na hora de decidir em quem voto.
Depois Falamos.

Almourol


O Cavalo e a Igreja